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Entenda o que é deflação e por que ela é um problema para a economia

Victor Leitão
Escrito por Victor Leitão

Quando os preços caem de forma persistente, as consequências podem ser tão ruins ou até piores que as da inflação alta, garantem economistas.

*Conteúdo publicado originalmente por G1

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A inflação descontrolada sempre foi um problema a ser combatido no Brasil. Em vista disso, quando os preços passam a cair, a impressão é de que a economia melhorou.

Afinal, tudo fica mais barato e o brasileiro pode consumir mais com a mesma quantia de dinheiro. Segundo economistas ouvidos pelo G1, esta conclusão é equivocada.

Em junho, o Índice de Preços ao Consumidor (IPCA) teve deflação de 0,23%, a primeira em 11 anos, segundo dados do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE).

A deflação acontece quando os preços de produtos e serviços caem em determinado período de tempo. É um movimento contrário ao de inflação, quando os preços sobem. A deflação é diferente da chamada desinflação – neste caso, os preços sobem, mas em ritmo mais lento.

Um dos principais fatores que levam à deflação é a recessão, explicam os economistas. Na crise, os consumidores compram menos e forçam as empresas a reduzir preços. Em junho, o Brasil registrou sua primeira deflação mensal desde 2006.

Segundo economistas, a deflação é tão ruim ou até pior que a inflação muito alta quando vira uma tendência. O motivo é simples: quando os preços caem demais, as pessoas deixam de consumir e passam a poupar, acreditando que o dinheiro valerá mais no futuro. Isso alimenta uma nova queda de preços, puxando a economia para baixo.

Histórico de deflação

Por poucas vezes o Brasil registrou deflação em sua história. Isso é um problema mais comum entre países desenvolvidos.

O caso mais grave aconteceu em 1930, como reflexo da quebra da bolsa de Nova York em 1929. Os preços cederam 8,9% em um ano, segundo dados do custo de vida no Rio de Janeiro disponibilizados pelo Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea).

Naquele momento, o governo de Getúlio Vargas precisou intervir comprando e queimando milhões de sacas de café, o principal produto exportado pelo Brasil na época.

A estratégia era reduzir a oferta e forçar um aumento nos preços. “O estado aumentou seus gastos para salvar a economia”, aponta o professor de economia da USP e especialista em inflação, Heron do Carmo.

Na história mais recente do Brasil, só houve deflação no Índice Nacional de Preços ao Consumidor Amplo (IPCA) – o principal indicador de preços do país – por no máximo três meses. Isso aconteceu entre julho e setembro de 1998, num período marcado por muitas crises financeiras no mundo e pela desvalorização das commodities.

Em outros países, a deflação já foi o maior vilão da economia. Duas das piores crises aconteceram nos Estados Unidos, após o “crash” da bolsa de Nova York em 1929 e, no Japão, durante a década de 1980. Os governos destes países precisaram intervir para combater um ciclo recessivo gerado pelos preços cada vez mais baixos.

Veja abaixo perguntas e respostas sobre a deflação, suas causas e efeitos:

O que é deflação?

A deflação acontece quando os preços dos produtos e serviços que circulam na economia caem. Ela pode ser pontual ou acontecer por um período mais longo.

Como um termômetro que mede a temperatura do corpo, a deflação pode sinalizar que algo não vai bem na economia e que é preciso fazer um diagnóstico, explica o economista André Chagas, da Fipe.

Por quanto tempo os preços precisam cair para uma economia estar em deflação?

O economista Claudio Considera, coordenador do Monitor do PIB-FGV, define um tempo mínimo de 1 ano para um processo deflacionário.

A queda nos preços precisa ser generalizada, não num item só, define André Braz, coordenador do IPC do FGV IBRE. “Precisa de uma sequência. Um mês ou outro é apenas uma flutuação atípica”.

O que pode levar os preços a caírem?

Há várias causas. A mais comum é a recessão, que derruba a procura por certos produtos e serviços. A deflação também pode vir pelo aumento da oferta, quando há um excedente de mercadorias sem pessoas dispostas a comprá-las.

Quando há menos moeda em circulação (pelo aumento da poupança, por exemplo), os preços também tendem a cair.

O que causou a deflação no IPCA de junho deste ano?

Fatores sazonais, conjunturais e estruturais explicam a deflação deste mês, diz o coordenador do Índice de Preços ao Consumidor (IPC) da Fundação Instituto de Pesquisas Econômicas (Fipe), André Chagas.

“Essa época do ano é caracterizada por variações mais bem comportadas nos preços”, afirma. “Particularmente, neste ano, as condições climáticas foram ainda mais favoráveis, resultando em nova safra recorde e, consequentemente, queda nos preços de alimentos”.

Outro fator é a recessão, diz Chagas. “A consequência é menos emprego e renda, firmas fechando e nenhum incentivo ao investimento. Some-se a isso as condições internacionais, também pouco favoráveis”, diz.

Segundo o economista, esses fatores resultam em atividade muito fraca e nenhum espaço para aumento de preços. “Ao contrário, necessidade de reduzi-lo”.

O Brasil corre o risco de passar um por uma deflação prolongada?

Segundo o professor de economia da USP Heron do Carmo, não há qualquer risco de isso acontecer. “Num país desenvolvido, já estaríamos num processo deflacionário com a crise que tivemos, mas nossa economia tem muitos indexadores que levam à correção automática de contratos, levando a uma persistência maior da inflação”, diz.

Para André Braz, do IBRE, o consumo, um mecanismo que gera inflação, está no DNA do brasileiro. “Há desestímulo para poupar, consumo represado e abundância do crédito. As famílias se comprometem a longo prazo. Você consome primeiro e depois paga”, diz.

Otto Nogami, professor de economia do Insper, acrescenta que métodos de produção mais modernos ajudariam a diminuir os preços pela redução dos custos de produção. “Não é o que está acontecendo no Brasil”.

Por que a deflação é ruim para a economia?

Quando há expectativa de que os preços caiam, os consumidores e empresários deixam de comprar e investir, apostando que os preços cederão ainda mais no futuro. Isso alimenta uma nova queda de preços e puxa a economia para baixo.

Se ninguém consome, ninguém vende, e as empresas são forçadas a ofertar seus produtos abaixo do custo, explica o economista Claudio Considera. Vender abaixo do custo gera prejuízos e leva a demissões, nutrindo a retração da economia.

Quais os efeitos negativos da deflação?

Se for apenas um episódio, a deflação pode ser uma mera correção de preços relativos – como um aumento muito forte no passado que será corrigido por uma queda de intensidade parecida – ou uma condição localizada em um determinado mercado – como a queda de preços agrícolas pela boa safra, aponta Chagas, da Fipe.

“Quando ela é persistente, virá acompanhada por destruição de postos de trabalho e de empresas. Nesse último caso, as consequências podem ser mais duradouras, pois podem comprometer a capacidade de investimento e de recuperação futuras”.

Quem mais perde com a deflação?

Todo mundo perde, mas os devedores são os mais prejudicados, especialmente os que contraíram crédito no longo prazo. Se os preços caírem muito, quem financiou um imóvel por 20 anos terá que pagar mais do que o bem passou a valer, por exemplo.

Isso também compromete a atividade dos bancos, que passam a emprestar menos, com menos gente disposta a contrair empréstimos na expectativa de que os preços continuem recuando. Pela lógica, é melhor guardar o dinheiro para pagar um valor menor no futuro.

Como o governo pode combater a deflação?

O principal mecanismo é emitir moeda e colocar mais dinheiro em circulação, que gerará alguma inflação em um período de 3 a 6 meses, diz Chagas.

Outra estratégia é jogar a taxa de juros lá embaixo, para reanimar o consumo. “Combater a deflação pode ser mais difícil que combater a inflação alta.

Japão e EUA fizeram o possível e impossível para evitar a deflação, fizeram a política de inundar a economia de dinheiro”, diz Heron.

O que é pior para uma economia: inflação alta ou deflação?

Segundo Chagas, a inflação muito alta (hiperinflação) é extremamente ruim, pois compromete investimentos e altera a distribuição de renda, concentrando-a. “No entanto, um período de deflação crônica é ainda mais perverso, pois tem os mesmos efeitos da inflação, mas com um comprometimento ainda maior”, diz.

Ao contrário da inflação alta, em que empresas conseguem sobreviver, ainda mais se houver correção monetária como no caso brasileiro, na deflação há fechamento de empresas e destruição de postos de trabalho em larga escala, explica o economista da Fipe.

Também na avaliação de Heron do Carmo, a deflação é muito pior que inflação. “Na inflação alta você perde os anéis. Na deflação forte, você perde a mão”, compara.

Qual a diferença entre deflação e desinflação?

Deflação acontece quando uma camisa que custava R$ 100 no mês passado passa a custar R$ 90, por exemplo.

Já na desinflação, uma camisa que havia ficado 20% mais cara no mês anterior ficou “apenas” 10% mais cara no mês seguinte.

A deflação pode prejudicar as contas públicas?

Uma queda generalizada e persistente nos preços tende a derrubar a arrecadação, uma vez que boa parte dos tributos, como o ICMS, incide sobre o preço dos produtos e serviços que circulam na economia.

Com uma arrecadação menor, o governo tem mais dificuldade de cobrir seus gastos, aumentando o risco do déficit fiscal (despesas maiores que as receitas).

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Sobre o autor

Victor Leitão

Victor Leitão

Victor Leitão, coordenador de marketing e especialista em finanças pessoais do Mobills, além de ser o editor-chefe do Portal Mobills. Formado em Ciências Contábeis pela Universidade Federal do Ceará - UFC e técnico em informática pelo Instituto Federal de Educação, Ciência e Tecnologia do Ceará - IFCE. Pesquisador incansável dos temas educação financeira e finanças pessoais. Principais hobbies: assistir filmes/séries, jogar futebol/Dota 2 e viajar.